quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Minha experiência no Escotismo II

 


Depois de estar totalmente fera na arte do escotismo, fui contemplado com a indicação para participar do próximo acampamento anual dos Lobinhos.

Meus pais queriam mais que eu ficasse um tempo fora e parasse de amarrar bombinhas no rabos dos cachorros lá de casa, por isso me despacharam com um aceno de mão e um belo chute nos fundilhos. Felizmente na época eu não era atacado de hemorroidas. Mesmo em sentido figurado, chutes nos fundilhos paternos doem.
 O acampamento anual acontecia sempre no mês de maio e acontecia em uma área próxima à Fazenda Peixe Pequeno. A Fazenda era propriedade de um conhecido do nosso Líder Lobo - nem lembro se era esse o nome que ele recebia.








Nosso Líder Lobo, no caso, era Pelópidas "Açougueiro" Fonseca. Sabíamos pouco dele, mas ele tinha uma tatuagem que dizia "17º Pelotão de Infantaria" com uma cobra. Ah, sim. Ele também tinha uma cicatriz na cara que ia do queixo até a orelha esquerda pra combinar.
 
No meio do mês pegamos o velho caminhão que nos transportava e fomos acampar. Um milagre em todos aqueles anos nenhum acidente ter acontecido. O caminhão roncava mais do que andava e o motorista parecia se esforçar para manter aquela sucata andando em linha reta.

 
 
Montamos o acampamento perto do leio do rio, afastados uns 500 metros da cerca da fazenda. Erguemos nossas barracas em círculo e começamos a organizar o que precisávamos e dividir os grupos responsáveis por cada coisa - recolher lenha, rastrear alimentos, organizar o suprimento de água, etc..
 
Era um lugar bonito mas minha maior lembrança é o cheiro de estrume de vaca e os mosquitos picando minhas canelas.
 
Tudo bem, tenho que admitir que as conversas a beira da fogueira eram legais. Muitos casos de fantasmas e histórias de terror. Mas acordar cedo todo dia fazia com que as histórias de terror acabassem servindo de música de ninar para muitos de nós. Tirando, claro, os habituais covardes que ficavam se cagando de medo enquanto ouviam e depois passavam a noite tremendo com a cabeça embaixo da coberta.


Já estávamos lá a uns 3 dias quando um dos meus companheiros Lobinho viu algo na floresta e nos mostrou. Foi o Chico Beiço de Baleia.

Naquela época o bullying não existia e nem impedia apelidos interessantes.


Era uma casa abandonada. Ficava bem no meio da floresta, segundo ele, e ele havia topado com ela quando disse que perseguia um quati. Baboseira. Provavelmente tinha perdido a trilha quando foi se esconder pra cagar no meio do mato. Falou que era gigantesca, maior ainda que a casa que era a sede da fazenda Peixe Pequeno.


 Como Chico Beiço de Baleia era um rematado mentiroso, ninguém acreditou. Acho que até mesmo ameaçaram encher o chapéu dele de purê de batatas no jantar da noite se ele não fechasse o maldito bico. Ou, no caso, a maldita beiçola.


A vontade de sair daquela rotina de cagar no mato, lavar as próprias roupas, acordar na mesma hora, obedecer obedecer obedecer deve ter me impelido a abandonar o acampamento na mesma noite e seguir para o tal local. Mesmo achando que tudo podia ser uma bela cuiuda do meu colega. Esperei a cambada toda dormir, peguei minha lanterna e minha faca e sai na direção que o Beiço havia apontado. Me sentia com tudo e sem estar prosa enquanto caminhava pelo bosque a noite, pensando em qual souvenir escolheria da casa apara mostrar aos meus colegas que eu havia estado lá. Na época essa babaquice de selfie não existia, então pra provar que você havia estado em algum lugar você tinha que ser homem, arregaçar as mangas e vandalizar alguma coisa que pudesse carregar pra esfregar na maldita fuça de quem duvidasse do que você estava falando.
 


Quase me borrei quando me deparei com aquela ruína caindo aos pedaços. Levei um tempão me convencendo de que era uma boa ideia entrar naquele mausoléu. Levei um tempo maior ainda rodeando a casa a procura de uma porta que não estivesse bloqueada e por fim achei uma nos fundos. Entrei tentando fazer o máximo de silêncio. Não porque tivesse medo de acordar o pessoal do acampamento - minhas habilidades de rastreador diziam que eles estava distantes no mínimo 2 km. Acho que no fundo no fundo eu tinha medo de acordar algo malévolo que dormisse de dia ali e vagasse pela noite.
Talvez esperando.
 
Talvez me esperando.
 
E era pior por dentro do que por fora. As paredes estavam descascando, limo e sujeira cobriam o chão na casa toda. O engraçado é que as janelas estavam intactas, como se as crianças que geralmente quebram vidraças de casas abandonadas tivessem ficado com medo de testar suas sortes naquele local. Um cheiro de podre empesteava o lugar e levei vários sustos com sons que vinham das paredes. Tentava me convencer que eram animais pequenos que montaram suas tocas entre as paredes da casa. Encontrei uma escada que parecia em bom estado e, depois de me certificar que todos os cômodos do primeiro andar estavam vazios, fui até o segundo andar. Claro, também achei a porta do porão. Mas nem por um cacete cravejado de diamantes que eu ia me meter por ali. Já estava pronto pra sair correndo a qualquer sinal de vida - ou de morte - lá dentro e tive de sair da casa antes de ir para o segundo andar pra poder mijar em uma árvore que ficava bem longe da casa. E depois de mijar fiquei pensando em sair correndo de volta pro acampamento sem souvenir nenhum. Mas sabe como são as crianças. Eu pelo menos fui uma bem burra.
 
Tomando coragem, respirei no pé da escada e fui subindo lentamente, sentindo os degraus rangendo com meus parcos 30 kg da época.
... to be continued

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