terça-feira, 31 de maio de 2016

Ilha Misteriosa em Santa Catarina


E eis que vejo uma reportagem muito parecida com o que eu vivi na marinha...




'Ilha misteriosa' em Santa Catarina deve ser miragem

Reportagem de 29 de agosto de 2012.


Segundo o Diário do Sul, um objeto misterioso surgiu na Praia da Vila, em Imbituba, litoral de Santa Catarina. A secretária Camila Hemília Ricinski postou no Facebook a foto que obteve do fenômeno, e obteve diversas respostas nos comentários feitos. De ilusões de ótica, passando pela ilha de Itacami vista em condições extraordinárias, até submarinos e visões alienígenas, as teorias apresentadas foram as mais díspares.
 
A própria Camila explica o caso: "Meu pai foi buscar o almoço em um restaurante na frente da praia e quando estava saindo o garçom chamou e perguntou há quanto tempo ele morava em Imbituba. Ele respondeu 30 anos e o garçom perguntou se ele já tinha visto aquela ilha e apontou para o mar. Ele ficou surpreso porque nunca tinha visto aquilo e o garçom disse que ficava coberto pelo mar e aparecia na maré baixa. Meu pai disse que não podia ser, porque era muito grande e, se fosse coberto na maré alta, o mar avançaria pela praia".
 
Ambos seguiram para a praia a fim de obter fotos, mas a secretária afirma que estava muito nervosa e somente uma ficou com nitidez apropriada. Retornaram depois, aproximadamente as 15 horas, mas não havia mais nada. Camila e seu pai concordam que a ilha de Itacami se situa em um ponto bem mais distante, e ficaram impressionados com a desaparição da "ilha misteriosa".
 
O caso motivou inclusive uma reportagem da filial local da Rede Globo, onde se aventou a possibilidade de se tratar de ilusão de ótica ou uma miragem, alterando a imagem da já mencionada ilha de Itacami. E de fato o mais provável que seja esse o caso, de acordo com o professor de Física Cléder Schulter. Conforme ele explica: "A refração é o fenômeno onde um raio de luz muda de direção ao passar de um meio para o outro. Isso ocorre porque a luz apresenta velocidade diferente em diferentes meios. No caso da imagem formada no mar, o raio de luz não passou de um meio para outro, mas ali a refração pode ter sido causada devido à formação de “camadas” de ar de diferentes temperaturas, sendo que a temperatura do ar deve crescer com o aumento da altura em relação à superfície do mar".
 
Com as condições climáticas que se observava na ocasião do avistamento, baixas no começo do dia e subindo com o correr das horas até cerca de 30 graus, o ar ficou dividido em camadas, cada uma com um índice de refração diferente. Daí que a imagem da ilha Itacami tenha aparecido com um formato diferente do normal, e segundo Cléder, mais visível e aparentemente mais próxima da praia.
 


O estranho objeto avistado há uma semana em Imbituba, na Praia da Vila e em Laguna, no Mar Grosso, pode ser explicado pelas leis da Física. O mais provável é que tenha ocorrido uma miragem da ilha Itacami, localizada na divisa dos dois municípios.

Segundo o professor de Física e mestrando em Educação, Cléder Schulter, de Braço do Norte, a refração explica as imagens vistas nas duas praias. “A refração é o fenômeno onde um raio de luz muda de direção ao passar de um meio para o outro. Isso ocorre porque a luz apresenta velocidade diferente em diferentes meios. No caso da imagem formada no mar, o raio de luz não passou de um meio para outro, mas ali a refração pode ter sido causada devido à formação de “camadas” de ar de diferentes temperaturas, sendo que a temperatura do ar deve crescer com o aumento da altura em relação à superfície do mar”, explica Cléder.

As condições climáticas do dia teriam sido favoráveis à ocorrência da miragem, pois as temperaturas estavam baixas ao amanhecer e ao longo do período se elevaram, chegando próximo aos 30°C. “Cada camada de ar, com temperatura diferente, tem índice de refração diferente. A elevação de temperatura ocorrida pela manhã pode ter formado essas camadas de ar. Esse tipo de miragem é chamado de miragem superior, não é muito comum e ocorre em locais frios. Outro tipo de miragem, chamada miragem inferior, é bem mais comum, e é aquela que ocorre em dias muito quentes, quando vemos uma poça d’água no asfalto alguns metros à frente e que, quando chegamos mais próximo, percebemos que o asfalto está seco”, esclarece o professor.

No caso da miragem superior, o raio de luz sofre uma curvatura descendente provocada pela refração. “Isso faz com que a imagem seja vista acima da superfície. Ela (refração) também torna os objetos maiores e mais alongados. Talvez por isso a ilha tenha ficado mais visível e, aparentemente, mais próxima da praia”, afirma Cléder.

Diário do Sul

Genial fala de Quint (Robert Shaw) em Tubarão

Um submarino japonês nos acertou com dois torpedos pelo lado, Chefe. Estávamos voltando da ilha de Tinian para Leyte - tínhamos acabado de entregar a bomba, a bomba de Hiroshima. Mil e cem homens entraram na água. O navio afundou em 12 minutos. Não vi o primeiro tubarão por cerca de meia hora - um tigre - quatro metros. Sabe como você sabe quando está na água, Chefe? Você diz olhando a partir da dorsal para a cauda.

O que não sabíamos era que a nossa missão tinha sido tão secreta que nenhum sinal de socorro havia sido enviado. Eles nem sequer nos listaram como atrasado por uma semana.
Amanheceu e os tubarões continuavam cruzando. Então ficamos bem juntos. Sabe, como naquelas pinturas da Batalha de Waterloo. A ideia era que quando o tubarão chegasse perto o homem mais próximo começasse a gritar e bater na água. As vezes o tubarão ia embora. As vezes não. As vezes esse tubarão olha bem direto pra você, bem nos seus olhos. Sabe, os olhos de um tubarão são pretos e sem vida como... como os olhos de uma boneca. Quando ele vem pra cima de você esses olhos continuam sem vida até ele começar a te morder e eles ficam brancos. Você ouve um grito e nem percebe que é você e o oceano fica vermelho e apesar de toda gritaria eles vem rasgar você em pedaços.
Sabe, até o final da primeira manã perdemos uns 100 homens. Eu não sei quantos tubarões haviam, talvez uns 1000. Devíamos perder uns 6 por hora. Na quinta-feira de manhã, chefe, eu esbarrei num amigo meu, Herbie Robinson, de Cleveland. Jogador de baseball. Companheiro de boatswain. Eu pensei que ele estava dormindo. Estendi a mão para acordá-lo. Balançava para cima e para baixo na água como um pião meio tombado. Bem, tinham mordido ele pela metade debaixo da cintura.
Meio-dia do quinto dia, Sr. Hooper, um Lockheed Ventura nos viu. Ele voltou voando baixo e nos viu. Ele era um piloto jovem, muito mais jovem do que o senhor, Sr. Hooper. De qualquer forma, ele nos viu e pousou na água e três horas mais tarde, um grande e gordo PBY desceu e começou a nos pegar.
Sabe, aquele era o momento em que fiquei mais assustado... esperando a minha vez. Eu nunca vou colocar um colete salva-vidas de novo.
Então, mil e cem homens entraram na água, trezentos e dezesseis homens saíram e os tubarões levaram o resto.
29 de junho de 1945.
Mas a bomba nós entregamos.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Minha Experiência na Marinha Mercante III


Durante o tempo em que fui marujo, muitas coisas interessantes aconteceram.

Mas de todas, uma é digna de nota e me arrepia até hoje porque foi por causa dela que larguei a vida no mar.

Estávamos transportando uma carga de revistas de francesas nuas e pomada feita a base de sebo de Touro (não me pergunte de onde era o sebo, não saberia dizer e nunca quis saber). Partimos no sábado em direção ao Uruguai e no meio do quinto dia o céu se tornou escuro como um saco de carvão e o mar ficou revolto.
 
 
 
 
 
Na época não tínhamos tanto acesso a determinados bens. Sendo assim o único relógio do barco era um cebolão que o capitão carregava... isso sem contar a ampulheta de areias vermelhas do velho MacbBeth que ele não deixava ninguém tocar pois dizia que contava o tempo para o Fim do Mundo. Segundo o relógio do capitão eram 15h42m da tarde... ou seja, não era tão metade do dia assim, mas você entendeu o que eu quero dizer. Não era pra estar escuro.
 
 
Outra coisa estranha: surgiram formações rochosas na superfície em uma região que, segundo os mapas de Macbeth. O capitão mandou cortar os motores e lançar âncora até que nossa posição fosse determinada.
 
 
Eu estava no deck coberto, jogando cartas com Sebastiano e Pafúncio quando o barco parou. Foi até bom porque eu acabara de perder meu sapato esquerdo para Pafúncio e havia apostado as calças para reavê-lo, coisa que eu achava difícil acontecer.
 

Subimos para o convés e Roy nos disse o que estava acontecendo. Lá embaixo não tínhamos noção do breu que estava e, por estar descalço, pisei num cocô do Sr. Bigodinho. Pensei seriamente em vivar músico, tocando especificamente tamborim, e procurar o gato pra me fornecer o couro para meu futuro novo instrumento.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Depois de raspar o pé na escada até ele ficar limpo - ou não tão sujo - ouvi todas as informações do capitão.

- Não tenho ideia do que infernos está acontecendo.

Enquanto discutíamos o que fazer com essa informação começou a ventar muito forte. Tivemos de nos abrigar correndo porque vagalhões imensos começaram a se formar. A tripulação assumiu seus postos e eu aproveitei pra pegar de volta o meu sapato que Pafúncio havia enfiado no bolso. Quando ele tentou reclamar, disse a ele que dava azar para a tripulação de um barco ter um marujo com um pé descalço.

- Dá mesmo. - disse Macbeth tomando um gole de sua garrafa de cachaça.

A tempestade durou por um bom tempo (não sei se foram 40 minutos ou 4 minutos porque eu não tinha a droga de um relógio). Lutamos contra a força da natureza como podíamos. Macbeth e o Capitão lutando para manter o curso, os outros rezando, se borrando de medo, vomitando pela amurada ou simplesmente gritando como mulheres desesperadas.

Por fim a tempestade sumiu como surgiu. O céu clareou um pouco - o Sol não apareceu, mas deixou de ser tão escuro.

Achamos que tudo tinha terminado ali, mas nos enganávamos.

Nos enganávamos muito.
 
Foi Macbeth que viu primeiro. Como ele era louco ou bêbado, não demos importância. Depois foi Roy Corróy quem viu. E gritou a plenos pulmões com uma voz mais esganiçada do que uma mulher:
 
- Tem um rosto na água!!!!!!!!!!
 
 
 
 
 
 
 
 
 


(Conitua)

digo

(Continua)

Minha Experiência na Marinha Mercante II

 
Depois que eu fiquei completamente fera na nobre arte da navegação, o que durou mais ou menos um dia de treinamento árduo, voltei pra casa e contei para os meus pais o que tinha acontecido.

Minha mãe me passou um sermão e meu pai me deu uma sova... ou foi ao contrário... na verdade não lembro bem porque só acordei no dia seguinte.  A sova foi bem dada, então acho que foi mesmo minha mãe.

Com o corpo todo quebrado, comuniquei aos meus pais que ficaria 2 meses fora. O Yamato ia partir naquela noite para um trabalho rentável mas perigoso.  Como meus pais já haviam me punido, me deram a benção e eu parti naquela mesma tarde pela rua, assobiando uma canção de marinheiros, em direção ao cais.

Não preciso dizer, mas vou dizer, que o Yamato na verdade era um navio de contrabando. Como na época haviam proibido no Brasil Goiabada importada, a procura pela mercadoria tinha atingido níveis absurdos e nosso capitão havia decidido trocar o ramo de carga de sabões pelo de contrabando. Claro que só fiquei sabendo disso quando voltávamos para o Brasil, ao ver um companheiro escondido comendo o que eu achei que era sabão mas, na verdade, era goiabada. E só descobri porque ele não espumou pela boca.

Enfim, acho que vale a pena falar dos meus colegas de tripulação da época.

Capitão Barrabás

Apesar do nome era um bom sujeito. Gostava de nos acordar no meio da madrugada gritando que o navio estava afundando e dava boas gargalhadas ao nos ver levantar correndo desesperados. Parece que teve uma gloriosa carreira na Marinha Branca antes de ir para a Marinha Mercante, tendo chegado à patente de cabo durante uma batalha. Também contavam a meia boca que ele já havia conseguido afundar pelo menos dois barcos no qual servira. Em um deles, no qual servia como taifeiro, preparou corvina estragada para o capitão e o imediato. A intoxicação deu diarreia no primeiro e fez o segundo ficar tonto a ponto de chocar o barco em que estavam contra um farol.

Pelo que soube ele morreu em 1960, ao gritar para os tripulantes de seu outro barco (Galípedes) que o mesmo estava afundando em uma noite. A tripulação não acreditou e voltou a dormir e o barco realmente estava afundando.  Ninguém se salvou.
 
Bigodinho (Imediato)
 
Talvez com medo que houvesse um motim entre a tripulação, o capitão nomeou seu gato Bigodinho como imediato no navio. Nunca soubemos se isso era legal ou não, já que eu era o único que sabia ler e não estava interessado em destituir legalmente o tal gato. A verdade é que eu gostava dele.  Caçava os ratos do barco.
 
Além de andar pra lá e pra cá, deixar pelo nas nossas camas e cagar nos cantos, Bigodinho não fazia muito coisa. Então, levando em conta os chefes que já tive, até que ele não foi dos piores... não ajudava mas também não atrapalhava.
 
 
Róy Corróy
 
Ex-policial, ex-atleta, ex-trapezista de circo, ex-cambista de ingressos do teatro municipal, diziam que se juntou aos marinheiros para escapar de uma mulher ou uma dívida. Não falava muito de seu passado.
 
Já na época ele era um antitabagista, quando isso ainda nem tinha nome. Era capaz de xingar 5 gerações do homem que acendesse um cigarro, cachimbo ou charuto a menos de 3 metros de onde ele estava.
 
 
 
Pafúncio
 
Encarregado de supervisionar o carregamento e descarregamento, acondicionar a carga e subornar os agentes alfandegários que surgissem pelo caminho. Tinha contatos fortes não só na Guarda Costeira como também na Capitania dos Portos.
 
Foi ele que eu vi comendo sabão... quer dizer... goiabada escondido.
 
Seu chapéu servia para esconder o dinheiro que ele carregava era usado para esconder dinheiro. Não havia perigo de ser roubado graças ao gel feito de graxa de banha de peixe com o qual ele besuntava a meia dúzia de cabelos que haviam na sua cabeça.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sir Macbeth Lear Henrique VIII
 
Navegador e timoneiro. Passou sua vida toda no mar e 2/3 dela bêbado. Sempre estava agarrado com uma garrafa de rum ou gim ou, principalmente, cachaça.  Dizem que foi graças à uma garrafa pela metade que ele conseguiu sobreviver ao naufrágio do Lusitânia e, posteriormente, do Titanic.

Costumava ter delírios durante o dia e a noite também, em geral falando sobre dragões de olhos de fogo ou baratas gigantes usando sapatos engraxados. Não sabíamos se isso era devido à bebida ou se ele era apenas um louco insano.
 
 
 
 
 
 
Sebastiano da Foice Sangrenta
 
O faz tudo do barco, foi meu principal professor na arte marítima.  Era uma boa pessoa, gostávamos de conversar mas não sabia muito da vida dele.
 
No fim soubemos que ele era na verdade um fugitivo da Penitenciária Estadual, acusado por vários crimes, inclusive incendiar um rebanho de gado.
 
Acho que o apelido dele, que eu achava ser um sobrenome, dava indicativos disso.









(Continua)
 


 

 

 

 

 


Minha Experiência na Marinha Mercante I



Minha outra lembrança mais antiga de uma ocupação foi de quando eu fui da marinha.
Na verdade, não exatamente da marinha. Fui de um navio cargueiro, comecei limpando o convés e terminei como cozinheiro.

Pra dizer a verdade, e acho que agora posso falar sobre isso sem ter medo de ser preso, o navio não era um cargueiro oficialmente falando... esqueçam esses navios grandes, confortáveis e bonitos. Esqueçam petroleiros e graneleiros.

Servi em apenas um navio, o Yamato-gata Senkan.



Era uma embarcação de 82 pés e 2 conveses. O que significa que ela tinha 25 metros e dois andares... quer dizer, tinha o tombadilho e a parte de baixo, onde guardávamos as porcarias que transportávamos. Além do castelo de proa... bom, deixa eu ver se acho uma foto e se meu neto de 9 anos pode me ajudar fazendo um áudio-visual pra facilitar pra vocês de entenderem.


Agradecimentos ao meu neto, Fedelho Murrinha da Casa da Rua de Baixo

Deu mole, Malandro.
Da próxima vez faz que nem eu: Corre!
Consegui esse emprego quando eu estava passeando (vagabundeando) pelas docas do Rio de Janeiro, na Praça XV. Na época a polícia andava pra lá e pra cá botando no xilindró qualquer um que fosse pego sem fazer nada na rua (a antiga prisão por vadiagem).  Por volta de 1937 até 1945, quando o Getúlio Vargas era o Presidente, criaram a lei da vadiagem. Num país cheio de falta de trabalho, a polícia garfava os desempregados. Até hoje ainda tem policiais que cismam de querer levar gente no camburão para "averiguação"... se bem que hoje em dia acho que seria até melhor fazerem mais isso.  Nunca vi tanto vagabundo mal intencionado por aí...

Bom, quando eu vi dois policiais vindo na minha direção, saí correndo e me enfiei em um navio que estava sendo carregado. Pra fugir da prisão pedi pelo Amor de Deus que o cara do barco que parecia ser o chefe pra me acobertar. Ele concordou e me mandou me esconder no deque coberto. Acabei pegando no sono... e quando acordei estávamos em alto-mar...

Foi assim que me tornei membro da Marinha Mercante.

Claro que pra combinar tratei de fazer logo umas tatuagens...  Sorte que todas elas saíram com água um tempo depois...

(continua...)

Eu e o Tonhão, meu tatuador da época.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Músicas que me traduzem 2


Até o Fim
Chico Buarque



Quando eu nasci veio um anjo safado 
O chato "dum" querubim 
E decretou que eu estava predestinado 
A ser errado assim 
Já de saída a minha estrada entortou 
Mas vou até o fim 




"Inda" garoto deixei de ir à escola 
caçaram meu boletim 
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola 
Nem posso ouvir clarim 
Um bom futuro é o que jamais me esperou 
Mas vou até o fim 



Eu bem que tenho ensaiado um progresso 
Virei cantor de festim 
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso 
Em Quixeramobim 
Não sei como o maracatu começou 
Mas vou até o fim 

Por conta de umas questões paralelas 
Quebraram meu bandolim 
Não querem mais ouvir as minhas mazelas 
E a minha voz chinfrim 
Criei barriga, a minha mula empacou 
Mas vou até o fim 



Não tem cigarro acabou minha renda 
Deu praga no meu capim 
Minha mulher fugiu com o dono da venda 
O que será de mim ? 
Eu já nem lembro "pronde" mesmo que vou 
Mas vou até o fim 



Como já disse é um anjo safado 
O chato "dum" Querubim 
Que decretou que eu estava predestinado 
A ser todo ruim 
Já de saída a minha estrada entortou 
Mas vou até o fim



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Minha experiência no Escotismo II

 


Depois de estar totalmente fera na arte do escotismo, fui contemplado com a indicação para participar do próximo acampamento anual dos Lobinhos.

Meus pais queriam mais que eu ficasse um tempo fora e parasse de amarrar bombinhas no rabos dos cachorros lá de casa, por isso me despacharam com um aceno de mão e um belo chute nos fundilhos. Felizmente na época eu não era atacado de hemorroidas. Mesmo em sentido figurado, chutes nos fundilhos paternos doem.
 O acampamento anual acontecia sempre no mês de maio e acontecia em uma área próxima à Fazenda Peixe Pequeno. A Fazenda era propriedade de um conhecido do nosso Líder Lobo - nem lembro se era esse o nome que ele recebia.








Nosso Líder Lobo, no caso, era Pelópidas "Açougueiro" Fonseca. Sabíamos pouco dele, mas ele tinha uma tatuagem que dizia "17º Pelotão de Infantaria" com uma cobra. Ah, sim. Ele também tinha uma cicatriz na cara que ia do queixo até a orelha esquerda pra combinar.
 
No meio do mês pegamos o velho caminhão que nos transportava e fomos acampar. Um milagre em todos aqueles anos nenhum acidente ter acontecido. O caminhão roncava mais do que andava e o motorista parecia se esforçar para manter aquela sucata andando em linha reta.

 
 
Montamos o acampamento perto do leio do rio, afastados uns 500 metros da cerca da fazenda. Erguemos nossas barracas em círculo e começamos a organizar o que precisávamos e dividir os grupos responsáveis por cada coisa - recolher lenha, rastrear alimentos, organizar o suprimento de água, etc..
 
Era um lugar bonito mas minha maior lembrança é o cheiro de estrume de vaca e os mosquitos picando minhas canelas.
 
Tudo bem, tenho que admitir que as conversas a beira da fogueira eram legais. Muitos casos de fantasmas e histórias de terror. Mas acordar cedo todo dia fazia com que as histórias de terror acabassem servindo de música de ninar para muitos de nós. Tirando, claro, os habituais covardes que ficavam se cagando de medo enquanto ouviam e depois passavam a noite tremendo com a cabeça embaixo da coberta.


Já estávamos lá a uns 3 dias quando um dos meus companheiros Lobinho viu algo na floresta e nos mostrou. Foi o Chico Beiço de Baleia.

Naquela época o bullying não existia e nem impedia apelidos interessantes.


Era uma casa abandonada. Ficava bem no meio da floresta, segundo ele, e ele havia topado com ela quando disse que perseguia um quati. Baboseira. Provavelmente tinha perdido a trilha quando foi se esconder pra cagar no meio do mato. Falou que era gigantesca, maior ainda que a casa que era a sede da fazenda Peixe Pequeno.


 Como Chico Beiço de Baleia era um rematado mentiroso, ninguém acreditou. Acho que até mesmo ameaçaram encher o chapéu dele de purê de batatas no jantar da noite se ele não fechasse o maldito bico. Ou, no caso, a maldita beiçola.


A vontade de sair daquela rotina de cagar no mato, lavar as próprias roupas, acordar na mesma hora, obedecer obedecer obedecer deve ter me impelido a abandonar o acampamento na mesma noite e seguir para o tal local. Mesmo achando que tudo podia ser uma bela cuiuda do meu colega. Esperei a cambada toda dormir, peguei minha lanterna e minha faca e sai na direção que o Beiço havia apontado. Me sentia com tudo e sem estar prosa enquanto caminhava pelo bosque a noite, pensando em qual souvenir escolheria da casa apara mostrar aos meus colegas que eu havia estado lá. Na época essa babaquice de selfie não existia, então pra provar que você havia estado em algum lugar você tinha que ser homem, arregaçar as mangas e vandalizar alguma coisa que pudesse carregar pra esfregar na maldita fuça de quem duvidasse do que você estava falando.
 


Quase me borrei quando me deparei com aquela ruína caindo aos pedaços. Levei um tempão me convencendo de que era uma boa ideia entrar naquele mausoléu. Levei um tempo maior ainda rodeando a casa a procura de uma porta que não estivesse bloqueada e por fim achei uma nos fundos. Entrei tentando fazer o máximo de silêncio. Não porque tivesse medo de acordar o pessoal do acampamento - minhas habilidades de rastreador diziam que eles estava distantes no mínimo 2 km. Acho que no fundo no fundo eu tinha medo de acordar algo malévolo que dormisse de dia ali e vagasse pela noite.
Talvez esperando.
 
Talvez me esperando.
 
E era pior por dentro do que por fora. As paredes estavam descascando, limo e sujeira cobriam o chão na casa toda. O engraçado é que as janelas estavam intactas, como se as crianças que geralmente quebram vidraças de casas abandonadas tivessem ficado com medo de testar suas sortes naquele local. Um cheiro de podre empesteava o lugar e levei vários sustos com sons que vinham das paredes. Tentava me convencer que eram animais pequenos que montaram suas tocas entre as paredes da casa. Encontrei uma escada que parecia em bom estado e, depois de me certificar que todos os cômodos do primeiro andar estavam vazios, fui até o segundo andar. Claro, também achei a porta do porão. Mas nem por um cacete cravejado de diamantes que eu ia me meter por ali. Já estava pronto pra sair correndo a qualquer sinal de vida - ou de morte - lá dentro e tive de sair da casa antes de ir para o segundo andar pra poder mijar em uma árvore que ficava bem longe da casa. E depois de mijar fiquei pensando em sair correndo de volta pro acampamento sem souvenir nenhum. Mas sabe como são as crianças. Eu pelo menos fui uma bem burra.
 
Tomando coragem, respirei no pé da escada e fui subindo lentamente, sentindo os degraus rangendo com meus parcos 30 kg da época.
... to be continued

Minha experiência no Escotismo I


Minha lembrança mais antiga de uma ocupação foi de quando eu fui escoteiro.
 
Na verdade, lobinho.
 
Tem uma certa diferença. Os Lobinhos são um dos ramos do escotismo, criado pelo Grande Chefe Escoteiro Baden-Powell e baseado no Livro da Selva, daquele escritor imperialista inglês chamado Rudyard Kipling.
 
De Kipling eu realmente só gosto do poema "Se".
 
O tal poema você encontra aqui. Pode meter o mouse ai sem medo que vai abrir em outra janela... ou, pelo menos, é o que o tal ajudante virtual do Blogger me disse.
 
 
Engraçado que eu vi esse poema em uma revista em quadrinhos... ah, mas espere. Cá estou eu divagando... coisas de velho.
 
Onde é que eu estava? Ah, sim... Os Lobinhos.

Na época, muito tempo atrás, ser escoteiro era quase uma obrigação dos futuros bons moços e na época bons meninos. Devo confessar que meu interesse em entrar nos Lobinhos nem foi pela disciplina, uniforme nem pelos amigos.


A verdade é que eu queria ter um canivete daqueles suíços. Eu queria uma maldita faca que fosse realmente minha.
 
Eu queria esse
Na minha idiotice infante acreditei que receberia uma com o uniforme. Ledo engano. Demorou quase um ano e meio para que eu ganhasse minha faca, e só quando a época em que meu Líder de Matilha me considerou apto a acampar com o grupo.
 
Ganhei esse. Gostei mais ainda.
 
Meu grupo de Lobinhos na época.
 

 Foi a primeira vez que dormi fora de casa. E nunca vou me esquecer dos eventos daquela noite.
 



 
 
... to be continued.

Músicas que me traduzem I

 

Dormi no molhado
do Grande Moreira da Silva
 

Eu quando vejo um rapaz
Na sua idade estendo a mão
Dele não tenho compaixão

Porque não me conformo ver um homem de talento não querer trabalhar
Sempre no me dá, me dá

Eu também já passei fome, já sofri não morri,
estou aqui vivo e são
e ninguém vai dizer que não
eu já andei atrapalhado, já andei afanado, mas nunca pedi um tostão

Acho que estou com a razão

Eu enfrentei uma marreta na pedreira são Diogo
Quebrando pedra roliça
Passando a pão e a linguiça

Dormindo no Cais do Porto no meio da sacaria
onde rato dormia
onde ventava e chovia




Quando o dia amanhecia vinha o chefe da limpeza
chogando agua fria

Vejam só como eu saia
sem café e sem cigarro
sem saber aonde ia,
sem tostão e sem vintém,
mas nunca pedi a ninguém




Cortei asfalto na linha,
fui vendedor de galinha,
carreguei cesto na feira,
eu fui garçom de gafieira

comia numa tendinha que só fritava sardinha
com azeite de lamparina
eu só cheirava a gasolina,

fui peixeiro e carvoeiro,
quitandeiro
fui bicheiro
apanhei como ladrão
mas não mudei de opinião
e como sou caprichoso
hoje me sinto outro homem
até já mudei meu nome

Pois me disseram até que eu virava lobisomem.


Opa! Esse aí é o Lobichomem!


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Começando em algum lugar


Vista do Centro e Leopoldina
 
Hoje tá um dia de chuva. E continua quente.
 
Pior pra quem vive nas ruas. Quem dorme em cima de jornal e papelão vai acordar molhado e provavelmente as marquises vão estar apinhadas.
 
Pior pra quem tem de andar até o trabalho. Vai meter o pé nas poças de água e vai ficar com um sapato molhado até terminar o dia. Sem contar o chulé de quando chegar em casa.
 
 
 
 
Pior pra quem pega ônibus. Qualquer chuva e a cidade para. O trânsito já é um caos naturalmente. O pior é o trem. Por que cargas d'água o trem fica pior na chuva? E no calor também? A Supervia é misteriosa mesmo.
 
Mas tá bom.

Estamos vivos, com saúde. É isso que importa.

Ipanema
Antes de hoje já fui escoteiro, trabalhei em um navio cargueiro, fui coveiro, cobrador de ônibus, andarilho, açougueiro, vendedor, sparring de box, etc etc etc.
 
Hoje com mais tempo sobrando, e com meu tempo acabando cada dia mais, resolvi dedicar meu tempo ocioso à internet.
 
 
Admirável mundo que vivemos. Bibliotecas disponíveis para quem quer ler, filmes a ora que der na telha, viajar pra qualquer canto sem sair da cadeira.

Meus pés de velho agradecem.

Elevado Paulo de Frontin
Tempos tristes em que vivemos. Onde as pessoas não tiram os focinhos das telas dos celulares, smartphones ou seja lá como são chamados hoje.
 
Mundo paradoxal. Gente passando fome e morrendo de lepra, gente preocupada com carros cada vez mais potentes e sem estradas livres para dirigir a toda.
Acidente na rua São Luís Gonzaga, São Cristovão hoje
Uma pessoa ferida

Os velhos loucos são piores que os loucos novos.
 
E ser louco é pensar diferente do rebanho, é se preocupar com coisas que não são da sua conta, que não te afetam.
 
Sem coesão textual, sem princípio, sem meio, sem fim, sem métrica, sem poética e meio sem saco.
 
Assim começo.
 
Começo assim.
 
 
 
 
Leblon (ou Ipanema?)