Depois que eu fiquei completamente fera na nobre arte da navegação, o que durou mais ou menos um dia de treinamento árduo, voltei pra casa e contei para os meus pais o que tinha acontecido.
Minha mãe me passou um sermão e meu pai me deu uma sova... ou foi ao contrário... na verdade não lembro bem porque só acordei no dia seguinte. A sova foi bem dada, então acho que foi mesmo minha mãe.
Com o corpo todo quebrado, comuniquei aos meus pais que ficaria 2 meses fora. O Yamato ia partir naquela noite para um trabalho rentável mas perigoso. Como meus pais já haviam me punido, me deram a benção e eu parti naquela mesma tarde pela rua, assobiando uma canção de marinheiros, em direção ao cais.
Não preciso dizer, mas vou dizer, que o Yamato na verdade era um navio de contrabando. Como na época haviam proibido no Brasil Goiabada importada, a procura pela mercadoria tinha atingido níveis absurdos e nosso capitão havia decidido trocar o ramo de carga de sabões pelo de contrabando. Claro que só fiquei sabendo disso quando voltávamos para o Brasil, ao ver um companheiro escondido comendo o que eu achei que era sabão mas, na verdade, era goiabada. E só descobri porque ele não espumou pela boca.
Enfim, acho que vale a pena falar dos meus colegas de tripulação da época.
Capitão Barrabás
Apesar do nome era um bom sujeito. Gostava de nos acordar no meio da madrugada gritando que o navio estava afundando e dava boas gargalhadas ao nos ver levantar correndo desesperados. Parece que teve uma gloriosa carreira na Marinha Branca antes de ir para a Marinha Mercante, tendo chegado à patente de cabo durante uma batalha. Também contavam a meia boca que ele já havia conseguido afundar pelo menos dois barcos no qual servira. Em um deles, no qual servia como taifeiro, preparou corvina estragada para o capitão e o imediato. A intoxicação deu diarreia no primeiro e fez o segundo ficar tonto a ponto de chocar o barco em que estavam contra um farol.
Pelo que soube ele morreu em 1960, ao gritar para os tripulantes de seu outro barco (Galípedes) que o mesmo estava afundando em uma noite. A tripulação não acreditou e voltou a dormir e o barco realmente estava afundando. Ninguém se salvou.
Bigodinho (Imediato)
Talvez com medo que houvesse um motim entre a tripulação, o capitão nomeou seu gato Bigodinho como imediato no navio. Nunca soubemos se isso era legal ou não, já que eu era o único que sabia ler e não estava interessado em destituir legalmente o tal gato. A verdade é que eu gostava dele. Caçava os ratos do barco.
Além de andar pra lá e pra cá, deixar pelo nas nossas camas e cagar nos cantos, Bigodinho não fazia muito coisa. Então, levando em conta os chefes que já tive, até que ele não foi dos piores... não ajudava mas também não atrapalhava.
Róy Corróy
Ex-policial, ex-atleta, ex-trapezista de circo, ex-cambista de ingressos do teatro municipal, diziam que se juntou aos marinheiros para escapar de uma mulher ou uma dívida. Não falava muito de seu passado.
Já na época ele era um antitabagista, quando isso ainda nem tinha nome. Era capaz de xingar 5 gerações do homem que acendesse um cigarro, cachimbo ou charuto a menos de 3 metros de onde ele estava.
Pafúncio
Encarregado de supervisionar o carregamento e descarregamento, acondicionar a carga e subornar os agentes alfandegários que surgissem pelo caminho. Tinha contatos fortes não só na Guarda Costeira como também na Capitania dos Portos.
Foi ele que eu vi comendo sabão... quer dizer... goiabada escondido.
Seu chapéu servia para esconder o dinheiro que ele carregava era usado para esconder dinheiro. Não havia perigo de ser roubado graças ao gel feito de graxa de banha de peixe com o qual ele besuntava a meia dúzia de cabelos que haviam na sua cabeça.
Sir Macbeth Lear Henrique VIII
Navegador e timoneiro. Passou sua vida toda no mar e 2/3 dela bêbado. Sempre estava agarrado com uma garrafa de rum ou gim ou, principalmente, cachaça. Dizem que foi graças à uma garrafa pela metade que ele conseguiu sobreviver ao naufrágio do Lusitânia e, posteriormente, do Titanic.
Costumava ter delírios durante o dia e a noite também, em geral falando sobre dragões de olhos de fogo ou baratas gigantes usando sapatos engraxados. Não sabíamos se isso era devido à bebida ou se ele era apenas um louco insano.
Costumava ter delírios durante o dia e a noite também, em geral falando sobre dragões de olhos de fogo ou baratas gigantes usando sapatos engraxados. Não sabíamos se isso era devido à bebida ou se ele era apenas um louco insano.
O faz tudo do barco, foi meu principal professor na arte marítima. Era uma boa pessoa, gostávamos de conversar mas não sabia muito da vida dele.
No fim soubemos que ele era na verdade um fugitivo da Penitenciária Estadual, acusado por vários crimes, inclusive incendiar um rebanho de gado.
Acho que o apelido dele, que eu achava ser um sobrenome, dava indicativos disso.
(Continua)
(Continua)

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