Durante o tempo em que fui marujo, muitas coisas interessantes aconteceram.
Mas de todas, uma é digna de nota e me arrepia até hoje porque foi por causa dela que larguei a vida no mar.
Estávamos transportando uma carga de revistas de francesas nuas e pomada feita a base de sebo de Touro (não me pergunte de onde era o sebo, não saberia dizer e nunca quis saber). Partimos no sábado em direção ao Uruguai e no meio do quinto dia o céu se tornou escuro como um saco de carvão e o mar ficou revolto.
Na época não tínhamos tanto acesso a determinados bens. Sendo assim o único relógio do barco era um cebolão que o capitão carregava... isso sem contar a ampulheta de areias vermelhas do velho MacbBeth que ele não deixava ninguém tocar pois dizia que contava o tempo para o Fim do Mundo. Segundo o relógio do capitão eram 15h42m da tarde... ou seja, não era tão metade do dia assim, mas você entendeu o que eu quero dizer. Não era pra estar escuro.
Outra coisa estranha: surgiram formações rochosas na superfície em uma região que, segundo os mapas de Macbeth. O capitão mandou cortar os motores e lançar âncora até que nossa posição fosse determinada.
Eu estava no deck coberto, jogando cartas com Sebastiano e Pafúncio quando o barco parou. Foi até bom porque eu acabara de perder meu sapato esquerdo para Pafúncio e havia apostado as calças para reavê-lo, coisa que eu achava difícil acontecer.
Subimos para o convés e Roy nos disse o que estava acontecendo. Lá embaixo não tínhamos noção do breu que estava e, por estar descalço, pisei num cocô do Sr. Bigodinho. Pensei seriamente em vivar músico, tocando especificamente tamborim, e procurar o gato pra me fornecer o couro para meu futuro novo instrumento.
Depois de raspar o pé na escada até ele ficar limpo - ou não tão sujo - ouvi todas as informações do capitão.
- Não tenho ideia do que infernos está acontecendo.
Enquanto discutíamos o que fazer com essa informação começou a ventar muito forte. Tivemos de nos abrigar correndo porque vagalhões imensos começaram a se formar. A tripulação assumiu seus postos e eu aproveitei pra pegar de volta o meu sapato que Pafúncio havia enfiado no bolso. Quando ele tentou reclamar, disse a ele que dava azar para a tripulação de um barco ter um marujo com um pé descalço.
- Dá mesmo. - disse Macbeth tomando um gole de sua garrafa de cachaça.
A tempestade durou por um bom tempo (não sei se foram 40 minutos ou 4 minutos porque eu não tinha a droga de um relógio). Lutamos contra a força da natureza como podíamos. Macbeth e o Capitão lutando para manter o curso, os outros rezando, se borrando de medo, vomitando pela amurada ou simplesmente gritando como mulheres desesperadas.
Por fim a tempestade sumiu como surgiu. O céu clareou um pouco - o Sol não apareceu, mas deixou de ser tão escuro.
Achamos que tudo tinha terminado ali, mas nos enganávamos.
Nos enganávamos muito.
Foi Macbeth que viu primeiro. Como ele era louco ou bêbado, não demos importância. Depois foi Roy Corróy quem viu. E gritou a plenos pulmões com uma voz mais esganiçada do que uma mulher:
- Tem um rosto na água!!!!!!!!!!
(Conitua)
digo
(Continua)








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